É possível diferenciar Transtorno Bipolar de Esquizofrenia?
Algumas pessoas me escreveram perguntando sobre a diferença entre o TAB e a esquizofrenia. Clareando mais um pouco em relação ao post anterior, diria que é uma questão de ponto de vista teórico.
Como já foi dito anteriormente, dentro da teoria psicanalítica lacaniana, não haveria grandes diferenças, uma vez que ambos os transtornos se enquadram dentro do espectro da psicose e, portanto, dizem respeito a não inserção do indivíduo no mundo da linguagem.
Já dentro do sistema nosológico da American Psychiatric Association, ambas não têm relação direta. A esquizofrenia é um transtorno psicótico e o TAB é um transtorno de humor. Ou seja, no TAB não há necessariamente sintomas como alucinações, delírios ou roubo de idéias.
Dentro do campo teórico da fenomenologia (do qual gosto muito), também existe uma diferença entre estes dois transtornos. A esquizofrenia estaria relacionada à alteração da "consciência do eu" e o TAB, a uma alteração do afeto. A "consciência do eu" pode ser definida como a consciência de suas próprias funções psíquicas. Já o humor pode ser definido como o estado emocional do indivíduo.
Dentro do campo teórico da fenomenologia (do qual gosto muito), também existe uma diferença entre estes dois transtornos. A esquizofrenia estaria relacionada à alteração da "consciência do eu" e o TAB, a uma alteração do afeto. A "consciência do eu" pode ser definida como a consciência de suas próprias funções psíquicas. Já o humor pode ser definido como o estado emocional do indivíduo.
Embora normalmente em ambos os transtornos haja alterações de humor e da consciência do eu, a diferença entre o TAB e a esquizofrenia seria qual das duas funções está no cerne do transtorno, de acordo com a fenomenologia. Numa pessoa sofrendo de esquizofrenia, as alterações do humor (catatonia, agressividade, embotamento) seriam conseqüência da falta de consciência das suas próprias funções psíquicas, enquanto no TAB o delírio seria uma alteração do estado emocional do indivíduo. E a partir dessa diferença seria conduzido o tratamento.
Sob a ótica dos manuais diagnósticos da APA, há um grande risco de considerarmos como esquizofrênico um cliente com alterações importantes do humor e da consciência do eu, mesmo que a alteração principal seja do humor.
Dentro de meu nível de experiência atual, acredito que a principal diferença entre a esquizofrenia e o TAB resida no que é colocado pela fenomenologia. Gosto dessa visão porque facilita muito o acompanhamento terapêutico do cliente. Outro ponto importante que diferencia a esquizofrenia dos transtornos de humor é o estado do paciente após a remissão dos sintomas: dificilmente um indivíduo com esquizofrenia consegue retornar ao ponto de funcionamento em que se encontrava antes de uma recaída.
Mesmo com todas essas questões expostas, é difícil mensurar a gravidade maior ou menor dos dois transtornos. Primeiro seria necessário definir o que é gravidade. É risco de suicídio? É nível de delírio? É nível de alucinação? É sofrimento? É possibilidade de remissão?
Se gravidade é o risco de suicídio, tanto a esquizofrenia quanto o TAB são gravíssimos.
Se gravidade é o nível de alucinação, a esquizofrenia é mais grave.
Se gravidade é o nível de delírio ou ideações delirantes, o TAB é mais grave.
Se gravidade é sofrimento, não há diferença, pois o sofrimento é algo subjetivo, idiossincrático, e não pode ser medido.
Concluindo, o sofrimento humano existe e se expressa de várias formas. O homem buscou classificá-lo, porque lhe interessa colocar rótulos e buscar as causas dentro de uma ótica científica cartesiana. Entretanto, há de se tomar muito cuidado, pois cada pessoa apresenta um sofrimento que é único, mesmo apresentando um transtorno classificado como "A" ou "B". E, ao iniciarmos um acompanhamento terapêutico qualquer que seja, devemos ter sempre no centro o indivíduo e não a doença. Essa é, ao meu ver, a chave da terapia, seja ela psicológica, psiquiátrica ou qualquer outra.
Qualquer dúvida, entre em contato ou deixe seu comentário.
Felipe Coura é psicólogo e atende no Vale do Aço.




