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Fenômenos como esse vêm chamando a atenção da Psicologia e se tornaram objeto de estudos e debates por profissionais da área, preocupados com o fato de questões da vida social, sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo histórico, serem reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo que não está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica, expressa no adoecimento do indivíduo.
Em suma a idéia de que problemas de comportamento devem ser tratados como doenças, distúrbios ou transtornos vêm crescendo na sociedade brasileira. É cada vez mais comum que questões de convivência e de inadequações à vida cotidiana sejam tratadas como problemas médicos. Cresce também o uso de medicamentos para questões relacionadas à saúde mental, sobretudo para quadros depressivos e psicóticos, mas é na área da educação que o problema vem sendo estudado mais detalhadamente pela Psicologia.
"Nós, psicólogos, estamos muito preocupados com essa onda crescente de busca por solução para questões que são do âmbito social e afetam a nossa maneira de ser em algo orgânico, a partir da idéia de que tais questões poderiam ser sanadas por algum tipo de droga. Que subjetividade estamos construindo? Como enfrentar os desafios cotidianos se não encontrarmos instrumentos e estratégias a partir de nossas ações e reflexões?" questiona Marilene Proença, conselheira do CFP e diretora da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.
De acordo com a psicóloga Beatriz de Paula Souza, membro do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar (Lieppe) do Instituto de Psicologia da USP, as explicações para o fenômeno são variadas: passam pela questão mercadológica, para aumentar vendas da indústria farmacêutica, e chegam na questão do controle social. "Esses diagnósticos, como por exemplo hiperatividade e déficit de atenção, tentam conter a diversidade do ser humano, patologizar todos aqueles que saem do padrão desejado. Se a criança não se ajusta à escola, não se comporta como as autoridades educacionais querem, é um potencial fácil de ser atingido pela medicalização", revela.
Uma das conseqüências desse fenômeno, segundo Beatriz de Paula Souza, é que as pessoas que estão sendo medicalizadas são exatamente aquelas que podem apontar necessidades de transformação. "Não se explicam problemas educacionais, não se busca resolver os problemas do sistema, mas coloca-se a culpa nas crianças, diagnosticam-nas como doentes", explica.
Para a professora de pediatria da Unicamp Maria Aparecida Moysés existe um ideário social que aponta para a uniformização da sociedade. "Nessa padronização quem é diferente incomoda muito. O não aceitar as normas sempre incomodou na sociedade", lembra.
A solução, segundo Moysés, não é simples e esbarra em interesses financeiros muito fortes. Ela alerta para a necessidade de estratégias para ajudar a resolver as questões apresentadas por aqueles que estão sendo medicalizados e não anestesiar os problemas.
A psicóloga Beatriz de Paula Souza coordena, dentro do Lieppe, um serviço de atendimento psicológico a crianças e adolescentes com dificuldades na escola e conta que, na maioria das vezes, conseguem reverter os diagnósticos patologizantes. "No atendimento, olhamos a singularidade daquela criança, daquele jovem que nos é apresentado como tendo dificuldade, levamos em consideração a rede de relações que o envolve - pais, professores, colegas de classe, meio social -, pois todos são partícipes no processo de aprendizado. Então, quando contextualizamos, analisamos as diversas situações, as coisas vão clareando, os significados aparecem", explica.
Texto publicado na edição de outubro de 2011 do Jornal do Conselho Federal de Psicologia.











