segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

É possível diferenciar Transtorno Bipolar de Esquizofrenia?


Algumas pessoas me escreveram perguntando sobre a diferença entre o TAB e a esquizofrenia. Clareando mais um pouco em relação ao post anterior, diria que é uma questão de ponto de vista teórico.

Como já foi dito anteriormente, dentro da teoria psicanalítica lacaniana, não haveria grandes diferenças, uma vez que ambos os transtornos se enquadram dentro do espectro da psicose e, portanto, dizem respeito a não inserção do indivíduo no mundo da linguagem.

Já dentro do sistema nosológico da American Psychiatric Association, ambas não têm relação direta. A esquizofrenia é um transtorno psicótico e o TAB é um transtorno de humor. Ou seja, no TAB não há necessariamente sintomas como alucinações, delírios ou roubo de idéias.

Dentro do campo teórico da fenomenologia (do qual gosto muito), também existe uma diferença entre estes dois transtornos. A esquizofrenia estaria relacionada à alteração da "consciência do eu" e o TAB, a uma alteração do afeto. A "consciência do eu" pode ser definida como a consciência de suas próprias funções psíquicas. Já o humor pode ser definido como o estado emocional do indivíduo.

Embora normalmente em ambos os transtornos haja alterações de humor e da consciência do eu, a diferença entre o TAB e a esquizofrenia seria qual das duas funções está no cerne do transtorno, de acordo com a fenomenologia. Numa pessoa sofrendo de esquizofrenia, as alterações do humor (catatonia, agressividade, embotamento) seriam conseqüência da falta de consciência das suas próprias funções psíquicas, enquanto no TAB o delírio seria uma alteração do estado emocional do indivíduo. E a partir dessa diferença seria conduzido o tratamento.

Sob a ótica dos manuais diagnósticos da APA, há um grande risco de considerarmos como esquizofrênico um cliente com alterações importantes do humor e da consciência do eu, mesmo que a alteração principal seja do humor.

Dentro de meu nível de experiência atual, acredito que a principal diferença entre a esquizofrenia e o TAB resida no que é colocado pela fenomenologia. Gosto dessa visão porque facilita muito o acompanhamento terapêutico do cliente. Outro ponto importante que diferencia a esquizofrenia dos transtornos de humor é o estado do paciente após a remissão dos sintomas: dificilmente um indivíduo com esquizofrenia consegue retornar ao ponto de funcionamento em que se encontrava antes de uma recaída.

Mesmo com todas essas questões expostas, é difícil mensurar a gravidade maior ou menor dos dois transtornos. Primeiro seria necessário definir o que é gravidade. É risco de suicídio? É nível de delírio? É nível de alucinação? É sofrimento? É possibilidade de remissão?

Se gravidade é o risco de suicídio, tanto a esquizofrenia quanto o TAB são gravíssimos.

Se gravidade é o nível de alucinação, a esquizofrenia é mais grave.

Se gravidade é o nível de delírio ou ideações delirantes, o TAB é mais grave.

Se gravidade é sofrimento, não há diferença, pois o sofrimento é algo subjetivo, idiossincrático, e não pode ser medido.

Concluindo, o sofrimento humano existe e se expressa de várias formas. O homem buscou classificá-lo, porque lhe interessa colocar rótulos e buscar as causas dentro de uma ótica científica cartesiana. Entretanto, há de se tomar muito cuidado, pois cada pessoa apresenta um sofrimento que é único, mesmo apresentando um transtorno classificado como "A" ou "B". E, ao iniciarmos um acompanhamento terapêutico qualquer que seja, devemos ter sempre no centro o indivíduo e não a doença. Essa é, ao meu ver, a chave da terapia, seja ela psicológica, psiquiátrica ou qualquer outra.

Qualquer dúvida, entre em contato ou deixe seu comentário.

Felipe Coura é psicólogo e atende no Vale do Aço.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Esquizofrenia ou Transtorno Bipolar?

Outro dia uma médica me colocou a seguinte questão: por que algumas pessoas com transtorno bipolar (TB) respondem tão bem a medicamentos para esquizofrenia?

A pergunta realmente é muito boa e pertinente, dando margem a uma discussão quase infinita sobre o diagnóstico psiquiátrico. Entretanto, para que nenhum de nós dois perdesse tempo na discussão, respondi de forma simples e direta: porque tanto a esquizofrenia quanto o TB, segundo a psicanálise, são exemplos de psicoses.

Dentro da psicanálise, a classificação nosológica é mais simplificada em relação aos recentes manuais diagnósticos (DSM) publicados pela American Psychiatric Association (APA). De maneira geral, segundo a psicanálise, o comportamento humano se situa entre o "normal" da neurose e o "patológico" da psicose, havendo uma série de nuances entre estes dois extremos. Chega a ser difícil definir exatamente quando uma pessoa deixa de ser neurótica e passa a ser psicótica.

Já dentro da classificação nosológica proposta pela APA as coisas são um pouco mais "binárias". Há uma série de critérios para se classificar a doença de um cliente e, uma vez preenchido os critérios, ele recebe um diagnóstico como os de esquizofrenia e TB.

Entretanto, há um bom motivo para a psicanálise agrupá-los dentro da classificação de psicose. Expliquei para a minha amiga que a psicose é caracterizada, dentro da teoria psicanalítica, pela incapacidade de compartilhar a linguagem; pela falta de reconhecimento dos próprios limites corpóreos.

Em termos práticos, isso significa que um psicótico não consegue entender o limite entre si e o mundo ao seu redor. Basicamente, é o que se chama de uma alteração na função da "consciência do eu" dentro da fenomenologia. Ele não consegue entender como seus os sentimentos - notadamente os negativos - e começa a projetá-los em formas de delírios e alucinações. O psicótico tem desejo de matar os vizinhos porque estes o perseguem; as coisas estão dando errado porque fizeram macumba; o corpo dói por causa de vermes que o estão comendo; escuta vozes dizendo para cometer algum ato ilícito e por aí vai. Reparem que em todos estes exemplos, muito comuns, a pessoa atribui uma causa externa a desejos, sensações e sentimentos que são internos.

Nos casos de transtorno bipolar também surgem sintomas psicóticos claros, principalmente como delírios nas relações sociais. As alucinações de desintegração corpórea são incomuns, mas normalmente os que sofrem de TB têm delírios de grandeza - "sou amigo do Obama" - na fase maníaca e se suicidam na fase depressiva, pois o mundo é grande demais sobre eles.

Em ambos os casos, a incapacidade de compartilhamento da linguagem social pode ser aferida pelo "teste da verdade": por mais esdrúxulo que seja o delírio/alucinação e por mais que tentemos argumentar a possibilidade de que ele seja uma invenção da mente do paciente, ele sempre aumentará a estória para incluir um fato novo para explicar o delírio/alucinação como uma verdade absoluta. De fato, essa abordagem argumentativa com o cliente é extremamente perigosa do ponto de vista terapêutico, pois fará com que o argumentador seja visto como um dos que o está perseguindo e querendo destruí-lo, levando à quebra da aliança terapêutica.

Mas voltando à resposta à minha amiga, disse a ela que é um pouco difícil ter clareza destas nuances sem o convívio direto com elas. A minha sorte foi ter trabalhado num hospital psiquiátrico. Lá, isso tudo fica muito mais claro e triste.

Um filme fantástico que trata do tema da esquizofrenia é Estamira. Indico tanto para os curiosos a respeito quanto aos profissionais da área. Uma das coisas que podemos perceber no filme é que, por mais que neguemos, existe uma lógica própria no mundo que essas pessoas criam.



Tem alguma sugestão de tema sobre o assunto? Escreva para fcoura@terapiabiografica.com.br ou clique aqui.

Felipe Coura é psicólogo e atende no Vale do Aço.

domingo, 18 de outubro de 2009

Quando a habilidade com o dinheiro diminui, considere Alzheimer

Novas pesquisas sugerem que, quando o pai ou a mãe começam a ter problemas com dinheiro, pode ser a hora de procurar ajuda.

A incapacidade de realizar operações financeiras ou manusear dinheiro pode ser um indicador precoce de que uma pessoa com problemas leves de memória poderá em breve desenvolver a doença de Alzheimer (DA), dizem os pesquisadores da Universidade de Alabama em Birmingham.

Os pesquisadores estudaram oitenta e sete pessoas com déficit cognitivo leve e um grupo controle de oitenta e seis pessoas sem problemas de memória. A habilidade dos participantes de administrar questões financeiras foi avaliada no começo do estudo e novamente um ano depois, usando uma ferramenta chamada Financial Capacity Instrument (FCI).

As habilidades incluiam a compreensão do saldo bancário, controle de caixa, pagamento de contas e a contagem de dinheiro.

Durante o período de um ano, vinte e cinco (29%) dos pacientes com déficit cognitivo evoluiram para DA. O escore geral destes vinte e cinco participantes diminuiu 6%.

O grupo controle e os demais pacientes que não evoluiram para demência mantiveram o nível do FCI ao longo do estudo.

"O declínio da habilidade financeira são detectáveis em pacientes com déficit cognitivo leve no ano anterior à evolução para DA", afirma o Daniel Marson, professor de neurologia e diretor do UAB Alzheimer´s Disease Center. "Isto indica que os médicos e demais profissionais de saúde precisam observar atentamente os pacientes nesta condição e aconselhar as famílias e cuidadores a tomar cuidados especiais para evitar situações perigosas".

O pesquisador sugere que os cuidadores acompanhem a movimentação bancária, contactem o banco para detectar irregularidades como contas pagas em duplicidade ou se tornem corresponsáveis pelas movimentações, de forma que a assinatura de ambos seja necessária para transações acima de certos valores. A realização de transações através de homebanking também é uma boa opção.

"A capacidade de administrar a própria vida financeira é fundamental para o sucesso da vida independente. Problemas com a habilidade financeira são frequentemente a primeira alteração funcional demonstrada por pacientes com demência leve", conclui o pesquisador.


Traduzido por Felipe Coura

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Terapia é tão eficaz quanto droga na depressão infantil, diz estudo

CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo

A terapia comportamental é tão eficaz quanto o uso de remédio no tratamento da depressão de crianças e adolescentes. A associação das duas técnicas, contudo, traz resultados mais rápidos e com menos chances de recaídas.

A conclusão é de um estudo recente realizado a partir de um levantamento financiado pelo Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos, com 439 crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos. O trabalho foi publicado no "Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry".

A taxa de depressão infantojuvenil vem crescendo em todo o mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Na faixa etária entre seis e 16 anos, por exemplo, ela passou de 4,5% para 8% na última década. A violência urbana, o excesso de atividades na agenda diária e a falta de espaço para o lazer são apontados como os principais fatores.

O trabalho envolveu 13 instituições norte-americanas e testou, isoladamente, três tipos de tratamento: terapia cognitivo-comportamental, antidepressivo (fluoxetina) e a associação de ambos. Ao final de 36 semanas, a taxa de eficácia dos três foi parecida: em torno de 60%.

Até a 18ª semana de tratamento, porém, a combinação de terapia comportamental e de remédio foi melhor do que a chamada monoterapia. As taxas de remissão (ausência de sintomas da depressão) foram de 56% (tratamento combinado) contra 37% (remédio) e 27% (terapia).

Tratamento combinado

Para o médico John March, professor de psiquiatria do Centro Médico da Universidade Duke e coordenador do estudo, se a depressão na criança for de moderada a severa, a recomendação é que o tratamento seja combinado. Se for leve, há indicação de terapia comportamental -e de acrescentar antidepressivo se não houver resposta rápida.

"A terapia comportamental é muito boa, mas o tratamento combinado traz resultados muito melhores, mais rápidos e mais duradouros do que somente a terapia ou a fluoxetina. A associação de tratamentos também elimina o risco de suicídio associado à medicação [fluoxetina]", explicou à Folha.

A psiquiatra Betsy Kennard, da Universidade do Texas, que também participou do estudo, observa que, com a monoterapia, há uma demora de dois a três meses para surtirem os resultados, em relação ao tratamento combinado.

"As crianças que recebem apenas remédio ou apenas terapia comportamental chegarão ao mesmo ponto em 36 meses [em relação àquelas que usam terapia combinada]. Mas, como pai ou mãe, você não vai querer ver seu filho sofrendo por tanto tempo."

Recaídas

O psiquiatra infantil Fábio Barbirato, professor da Santa Casa do Rio de Janeiro, acrescenta que a terapia associada à medicação traz menos chances de recaída. "A depressão costuma ser flutuante: há uma melhora, uma piora. As crianças que tomam o remédio e fazem terapia têm menos recaídas em relação às outras."

Para Barbirato, a mensagem do estudo é que os médicos não devem desistir de tratar crianças e adolescentes deprimidos. "Muitos acabam sendo expostos a um tratamento ineficaz e que traz riscos à sua saúde por conta de diagnósticos errados, baseados em mitos."

Vários estudos têm demonstrado que crianças com sintomas depressivos não tratados possuem mais chances de cometer suicídio, de se tornarem dependente de drogas ou de manter a doença na idade adulta. "Não tem essa conversa de que as coisas vão melhorar com o tempo. Sem tratamento, quem sofre é a criança."

O psiquiatra acredita que a polêmica que ainda existe em torno do uso de antidepressivo em crianças "é coisa de profissional que não está bem atualizado e que vai contra tudo o que existe de mais atual".

Barbirato diz que já atendeu um garoto de sete anos de idade que havia tentado duas vezes o suicídio. "Ele já tinha passado por várias terapias inúteis. Depois de dois anos com terapia comportamental e remédio, ele teve alta. Está sem remédio, nunca mais recaiu."

Na avaliação do psiquiatra Eurípedes Miguel, professor titular do departamento de psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), a grande importância do estudo foi ter demonstrado que a manutenção do tratamento a longo prazo é fundamental para os adolescentes conseguirem a remissão dos sintomas da depressão.

sintomas depressao infantil