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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Crescente Medicalização de Esferas da Vida Preocupa a Psicologia

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Em oito anos, aumentou em 1.616% o consumo de Metilfenidato, princípio ativo dos remédios Ritalina e Concerta, receitados para crianças com hiperatividade ou déficit de atenção. Em 2000, foram vendidas 71 mil caixas desses medicamentos no Brasil. Em 2008, as vendas atingiram 1,14 milhão. Amplamente difundido, o Metilfenidato ganhou o apelido de "a droga da obediência".

Fenômenos como esse vêm chamando a atenção da Psicologia e se tornaram objeto de estudos e debates por profissionais da área, preocupados com o fato de questões da vida social, sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo histórico, serem reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo que não está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica, expressa no adoecimento do indivíduo. 

Em suma a idéia de que problemas de comportamento devem ser tratados como doenças, distúrbios ou transtornos vêm crescendo na sociedade brasileira. É cada vez mais comum que questões de convivência e de inadequações à vida cotidiana sejam tratadas como problemas médicos. Cresce também o uso de medicamentos para questões relacionadas à saúde mental, sobretudo para quadros depressivos e psicóticos, mas é na área da educação que o problema vem sendo estudado mais detalhadamente pela Psicologia. 

"Nós, psicólogos, estamos muito preocupados com essa onda crescente de busca por solução para questões que são do âmbito social e afetam a nossa maneira de ser em algo orgânico, a partir da idéia de que tais questões poderiam ser sanadas por algum tipo de droga. Que subjetividade estamos construindo? Como enfrentar os desafios cotidianos se não encontrarmos instrumentos e estratégias a partir de nossas ações e reflexões?" questiona Marilene Proença, conselheira do CFP e diretora da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional. 

De acordo com a psicóloga Beatriz de Paula Souza, membro do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar (Lieppe) do Instituto de Psicologia da USP, as explicações para o fenômeno são variadas: passam pela questão mercadológica, para aumentar vendas da indústria farmacêutica, e chegam na questão do controle social. "Esses diagnósticos, como por exemplo hiperatividade e déficit de atenção, tentam conter a diversidade do ser humano, patologizar todos aqueles que saem do padrão desejado. Se a criança não se ajusta à escola, não se comporta como as autoridades educacionais querem, é um potencial fácil de ser atingido pela medicalização", revela. 

Uma das conseqüências desse fenômeno, segundo Beatriz de Paula Souza, é que as pessoas que estão sendo medicalizadas são exatamente aquelas que podem apontar necessidades de transformação. "Não se explicam problemas educacionais, não se busca resolver os problemas do sistema, mas coloca-se a culpa nas crianças, diagnosticam-nas como doentes", explica. 

Para a professora de pediatria da Unicamp Maria Aparecida Moysés existe um ideário social que aponta para a uniformização da sociedade. "Nessa padronização quem é diferente incomoda muito. O não aceitar as normas sempre incomodou na sociedade", lembra. 

A solução, segundo Moysés, não é simples e esbarra em interesses financeiros muito fortes. Ela alerta para a necessidade de estratégias para ajudar a resolver as questões apresentadas por aqueles que estão sendo medicalizados e não anestesiar os problemas.

A psicóloga Beatriz de Paula Souza coordena, dentro do Lieppe, um serviço de atendimento psicológico a crianças e adolescentes com dificuldades na escola e conta que, na maioria das vezes, conseguem reverter os diagnósticos patologizantes. "No atendimento, olhamos a singularidade daquela criança, daquele jovem que nos é apresentado como tendo dificuldade, levamos em consideração a rede de relações que o envolve - pais, professores, colegas de classe, meio social -, pois todos são partícipes no processo de aprendizado. Então, quando contextualizamos, analisamos as diversas situações, as coisas vão clareando, os significados aparecem", explica. 

Texto publicado na edição de outubro de 2011 do Jornal do Conselho Federal de Psicologia

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Televisão Faz Mal às Crianças: Nova Diretriz da AAP

A tentação de buscar nas telas o entretenimento de bebês e crianças é mais forte que nunca, com telas cercando as famílias em casa, no carro e nos mais diversos locais. E o que não falta são programas dirigidos ao pequenos. Todavia, uma nova diretriz da American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria - AAP) diz que há maneiras mais adequadas de colaborar com o desenvolvimento da crinaça nesta idade crítica. 

Em uma pesquisa recente [nos EUA], 90% dos pais disseram que seus filhos menores de dois anos assistem a alguma forma de mídia eletrônica. Em média, as crianças desta idade assistem entre uma e duas horas de televisão por dia. Aos três anos, quase um terço das crianças já possuem uma televisão no próprio quarto. Os pais que acreditam que programas educativos são "muito importantes para um desenvolvimento saudável" estão duas vezes mais propensos a deixar a televisão ligada todo o tempo ou a maior parte dele. 

A diretriz "Media Use by Children Younger Than Two Years" (Uso de Mídia por Crianças Menores de Dois Anos) foi lançada no dia 18 de outubro. Essa não é a primeira orientação publicada pela AAP: em 1999 ela publicou a diretriz "Media Education", a qual desaconselhava o uso da TV por crianças daquela mesma faixa etária. 

Naquela época, havia poucos dados sobre o assunto, mas a AAP acreditava que haveria mais potencial para efeitos negativos que positivos na exposição de crianças à mídia eletrônica. Dados recentes confirmaram a hipótese e a AAP manteve a recomendação de manter as crianças abaixo de dois anos o mais "livre de tela" possível. Hoje se sabe mais sobre o desenvolvimento cerebral, sobre as melhores maneiras de se colaborar para o aprendizado e sobre os efeitos dos vários tipos de estímulo e atividades nese processo. 

Os estudos conduzidos a partir de então buscaram responder a duas questões:
  • Os programas televisivos e em vídeo têm algum valor educacional para crianças menores de dois anos?
  • Há algum prejuízo para a criança nesta idade que assiste a esses programas?

Os resultados mais importantes foram:
  • Muitos programas para crianças e bebês são vendidos como "educacionais", mas as evidências não suportam esta colocação. Os programas são educacionais para a criança somente se a mesma é capaz de compreender o conteúdo e o contexto do vídeo. Vários estudos foram conclusivos em afirmar que apenas crianças acima de dois anos normalmente possuem tal capacidade. 
  • A brincadeira desestruturada é mais importante para o desenvolvimento cerebral que aparelhos eletrônicos. As crianças aprendem a pensar com criatividade, a resolver problemas e a desenvolver capacidades motora e cognitiva através deste tipo de atividade. A brincadeira livre também ensina a criança a como se divertir sozinha. 
  • As crianças pequenas aprendem melhor com - e precisam de - interação com humanos, não com telas. 
  • Os pais que assistem a TV ou a vídeos com seus filhos podem ajudar a criança a compreender ao que é assistido, mas os pequenos aprendem mais de situações reais que virtuais. 
  • Quando os pais assistem aos seus próprios programas enquanto a criança brinca, isto interfere no aprendizado da criança com a atividade que ela estiver realizando, além de diminuir a interação pais-filhos. 
  • Assistir à TV antes de dormir pode levar a hábitos inadequados de sono e a horários irregulares de sono, o que pode afetar negativamente o humor, o comportamento e o aprendizado da criança. 
  • As crianças que usam computador, televisão, celular, etc. estão mais propícias a atrasos no desenvolvimento da linguagem assim que entram na escola, mas são necessárias mais pesquisas quanto às causas. 

A diretriz recomenda aos pais e cuidadores:
  • Limite a mídia eletrônica para crianças menores que dois anos, tendo em mente que a AAP desaconselha o uso de tais equipamentos para esta faixa etária. Tenha uma estratégia para administrar o uso de mídia eletrônica se desejar que a criança faça uso dela.
  • Ao invés de telas, opte por brincadeiras solitárias supervisionadas para crianças durante o tempo em que os pais não puderem se juntar ativamente à brincadeira. 
  • Evite colocar um aparelho de TV no quarto da criança.
  • Tenha em mente que os programas/vídeos destinados à criança podem provocar um efeito negativo nelas. 

A diretriz recomenda ainda um aprofundamento da pesquisa quanto aos efeitos de longo prazo da exposição precoce a mídias eletrônicas. 

De acordo com um dos pesquisadores, no mundo atual, a melhor coisa a se fazer por sua criança é dar a ela a chance de uma brincadeira desestruturada - solitária ou acompanhada. A criança precisa disso para descobrir como o mundo funciona. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ansiedade e Imaginação

Um homem estava interessado em aprender meditação. Foi até um zendo (local de prática meditativa zen) e bateu na porta. Um velho professor o atendeu:
"Sim?"
"Bom dia meu senhor," começou o homem. "Eu gostaria de aprender a fazer meditação. Como eu sei que isso é difícil e muito técnico, eu procurei estudar ao máximo, lendo livros e opiniões sobre o que é meditação, suas posturas, etc... Estou aqui porque o senhor é considerado um grande professor de meditação. Gostaria que o senhor me ensinasse."
O velho ficou olhando o homem enquanto este falava. Quando terminou, o professor disse:
"Quer aprender meditação?"
"Claro! Quero muito?" exclamou o outro.
"Estudou muito sobre meditação?", disse um tanto irônico.
"Fiz o máximo que pude..." afirmou o homem.
"Certo," replicou o velho. "Então vá para casa e faça exatamente isso: NÃO PENSE EM MACACOS."
O homem ficou pasmo. Nunca tinha lido nada sobre isso nos livros de meditação. Ainda meio incerto, perguntou:
"Não pensar em macacos? É só isso?"
"É só isso."
"Bem isso é simples de fazer" pensou o homem, e concordou. O professor então apenas completou:
"Ótimo. Volte amanhã," e bateu a porta.
Duas horas depois, o professor ouviu alguém batendo freneticamente a porta do zendo. Ele abriu-a, e lá estava de novo o mesmo homem.
"Por favor me ajude!" exclamou aflito "Desde que o senhor pediu para que eu não pensasse em macacos, não consegui mais deixar de me preocupar em NÃO PENSAR NELES!!!! Vejo macacos em todos os cantos!!!!"
Uma das causas comuns da ansiedade é o mal uso da nossa imaginação. As pessoas ansiosas tendem a ter uma imaginação fértil. O problema, todavia, é que elas, continua e não intencionalmente, utilizam a imaginação para gerar preocupações carregadas de sentimentos. 

Por exemplo, alguém que frequentemente acorda de madrugada e fica remoendo "E se tivesse feito isso..." e imaginando os mais terríveis resultados para si ou as pessoas queridas. Essa pessoa acaba por criar fantasias negativas intensas que a mantém em um constante estado de alerta. 

Outro exemplo: se alguém tem medo de aranhas, gatos, aves ou espelhos, essa pessoa pode passar muito de seu tempo imaginando situações nas quais ela se confrontaria com esses  estressores, bem como imaginando o pânico que ela sentiria. 

Os exemplos, como se pode perceber, são inúmeros. 

A imaginação não é algo inofensivo. Ela é uma ferramenta útil e poderosa, mas pode também paralisar algumas pessoas, particularmente aquelas propensas ao pessimismo. 

O budismo explora muito bem essa questão da influência de nossos pensamentos em nosso estado de espírito e frisa a importância de vivermos sem ilusões e com o foco no momento presente para termos equilíbrio. O conto seguinte ilustra bem essa situação.
Após ganhar vários torneios de Arco e Flecha, o jovem e arrogante  campeão resolveu desafiar um mestre Zen que era renomado pela sua capacidade como arqueiro.
O jovem demonstrou grande proficiência técnica quando ele acertou em um distante alvo na mosca na primeira flecha lançada, e ainda foi capaz de dividi-la em dois com seu segundo tiro.
"Sim!", ele exclamou para o velho arqueiro, "Veja se pode fazer isso!"
Imperturbável, o mestre não preparou seu arco, mas em vez disso fez sinal para o jovem arqueiro segui-lo para a montanha acima. Curioso sobre o que o velho estava tramando, o campeão seguiu-o para o alto até que eles alcançaram um profundo abismo atravessado por uma frágil e pouco firme tábua de madeira. Calmamente caminhando sobre a insegura e certamente perigosa ponte, o velho mestre tomou uma larga árvore longínqua como alvo, esticou seu arco, e acertou um claro e direto tiro.
"Agora é sua vez," ele disse enquanto ele suavemente voltava para solo seguro.
Olhando com terror para dentro do abismo negro e aparentemente sem fim, o jovem não pôde forçar a si mesmo caminhar pela prancha, muito menos acertar um alvo de lá.
"Você tem muita perícia com seu arco," o mestre disse, percebendo a dificuldade de seu desafiante, "mas você tem pouco equilíbrio com a mente que deve nos deixar relaxados para mirar o alvo."

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O que é a Compra Compulsiva?

O Comprar Compulsivo (CC) é caracterizado por um comportamento inadequado de compra. Enquanto que para a maioria das pessoas ir as compras é algo rotineiro na vida, o ato de comprar no CC é experimentado como um desejo irresistível e incontrolável, o que leva um consumo excessivo e oneroso, normalmente seguido de afetos negativos (tristeza, culpa, etc) e dificuldades nos campos social, pessoal e financeiro. Embora a tendência seja associar o CC a um problema feminino, estudos recentes mostram que a prevalência deste transtorno é relativamente igual entre os sexos. 

Não existem muitos estudos de levantamento de prevalência populacional. Um estudo nos EUA estimou que 1,8 a 8,1% da população apresenta dificuldades relacionadas a CC, normalmente surgindo entre 18 e 30 anos de idade e se tornando clinicamente importante por volta dos 31 a 39 anos. Um estudo conduzido na Alemanha mostrou que a exposição da população da Alemanha Oriental à cultura do consumo resultou em um aumento de 6 vezes na ocorrência de casos de CC, sugerindo que fatores socio-culturais têm influência no transtorno. A demografia típica do CC aponta para uma preponderância de ocupações de média e baixa renda, o que levanta a hipótese de que os compradores-compulsivos ignorem as conseqüencias de sua difícil vida financeira. 

O comprar compulsivo foi associado tanto a um ambiente de abuso quanto de negligência durante a infância. Desenvolve-se então uma forte ligação aos bens materiais, que passam a prover uma sensação de segurança psicológica. 

Um fator chave para o início do episódio de compra compulsiva parece ser a experiência de emoções negativas, como por exemplo desapontamento com o próprio corpo, tristeza, estresse ou ansiedade antes dos episódios. Há uma forte correlação entre este transtorno e depressão. 

Fatores externos também contribuem para os episódios de compra compulsiva. O simples fato da exibição da propaganda de crédito pode aumentar a chance do episódio, seja ele em uma loja real ou virtual. 

Durante o processo de compra, os compradores compulsivos passam por um estreitamento de sua atenção, ficando completamente absorvidos pela situação e com dificuldades em avaliar o que estão fazendo. A compra aparentemente gera uma melhora temporária no humor e na auto-estima e estas são as motivações principais para a compra patológica, e não a propriedade dos objetos. De fato, muitos dos objetos comprados durante os episódios não encontram utilidade uma vez passada a compra. 

Passado o episódio, o comprador compulsivo normalmente se isola socialmente, sente-se culpado e com baixa auto-estima, e novamente se estabelece a condição emocional para um novo episódio. 

Na dúvida se precisa de ajuda? Veja as perguntas a seguir:
  • Se o seu dinheiro sobra após pagar as contas, você tem de gastá-lo imediatamente?
  • Você frequentemente sente que os outros ficariam horrorizados se soubessem como você habitualmente gasta seu dinheiro?
  • Você frequentemente compra coisas mesmo que não possa pagar por elas?
  • Você faz cheques sabendo que não há dinheiro no banco para cobri-lo?
  • Você frequentemente compra coisas só para se sentir melhor?
  • Você se sente nervoso(a) ou ansioso(a) nos dias em que não vai às compras?
  • Você freqüentemente para somente o valor mínimo das faturas de seus cartões de crédito?
Se você respondeu positivamente a algumas dessas perguntas e sua atitude em relação às compras tem lhe trazido incômodo, procure a ajuda de um psicólogo ou outro profissional da saúde mental. Eles poderão fazer um diagnóstico mais apurado e direcionar o tratamento. 

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